OS RISCOS OCULTOS DO USO ABUSIVO DE TOMOGRAFIAS

Por JANE E. BRODY

Publicado no caderno The New York Times da Folha de São Paulo de 10/09/2012

A radiação, assim como o álcool, é uma faca de dois gumes. Ela tem utilidades médicas indiscutíveis ao revelar problemas ocultos, de fraturas ósseas e lesões pulmonares a defeitos cardíacos e tumores. E pode ser usada até para tratar e eventualmente curar certos tipos de câncer.

Mas a radiação também tem um sério efeito colateral: a possibilidade de danificar o DNA e, 10 a 20 anos depois, causar câncer.

Acredita-se que tomografias computadorizadas, que usam de 100 a 500 vezes mais radiação do que uma radiografia comum e hoje respondem por três quartos da exposição dos norte-americanos à radiação, causem 1,5% de todos os casos de câncer diagnosticados nos Estados Unidos.

O reconhecimento desse risco e o alarme com a popularização dos diagnósticos radiológicos por imagem têm motivado vários especialistas a pedirem que os médicos pensem duas vezes antes de solicitar exames que envolvem uso de radiação.

“Todos os exames por imagem aumentaram, mas as tomografias respondem pela maior parte disso”, afirmou Rebecca Smith-Bindman, especialista em radiologia e imagens biomédicas na Universidade da Califórnia, em San Francisco.

“Há claramente um uso excessivo generalizado. Mais de 10% dos pacientes estão recebendo a cada ano exposições muito elevadas à radiação.”

O segredo para o uso apropriado, dizem especialistas, é pesar riscos e benefícios.

Alguns dos usos mais novos dos diagnósticos radiológicos, incluindo tomografias das coronárias para avaliar sua calcificação, ainda não passaram por testes clínicos. Especialistas estimam que o uso disseminado dos exames nas coronárias, que emitem 600 vezes a radiação de um raio-X torácico, pode resultar em 42 casos de câncer a cada 100 mil homens e em 62 casos a cada 100 mil mulheres.

Para cada mil pacientes submetidos a tomografia cardíaca, a radiação agrega um risco adicional de câncer aos 420 que normalmente aconteceriam. Esse risco pode parecer ínfimo, mas não para alguém que contraia um câncer que poderia ser evitado.

A questão é ainda mais complexa por causa da enorme variação -eventualmente de dez vezes ou mais- na quantidade de radiação à qual os pacientes são expostos quando um mesmo procedimento é feito em instituições diferentes.

Embora os efeitos cancerígenos da radiação sejam cumulativos, ninguém monitora quanta radiação atinge os pacientes.

Mesmo quando os pacientes são questionados acerca de exames anteriores, o objetivo é quase sempre comparar as novas conclusões às anteriores, e não estimar os riscos da radiação adicional.

Michael Lauer, do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue, escreveu sobre o tema na revista “The New England Journal of Medicine”.

“A questão da exposição à radiação dificilmente será abordada, porque cada procedimento é considerado isoladamente, os riscos acarretados por cada procedimento são baixos e aparentemente incomensuráveis, e qualquer câncer induzido pela radiação só aparece anos depois, e não pode ser facilmente vinculado a procedimentos de exames por imagens no passado”, afirmou Lauer.

Médicos em consultórios particulares, quando adquirem tomógrafos, tendem a usá-los intensamente, para compensar o custo. O mesmo vale para hospitais separados por poucos quilômetros, equipados de forma redundante para poderem se gabar de terem a maior e mais moderna capacidade de diagnóstico.

Os médicos que pedem os exames não sofrem os efeitos colaterais, e os pacientes sentem que estão tendo acesso ao que há de mais moderno na medicina.

Smith-Bindman e seus colegas relataram em junho na “Jama”, revista da Associação Médica Americana, um forte aumento no uso do diagnóstico por imagens entre 1996 e 2010 em seis grandes sistemas pré-pagos de saúde nos quais deveria haver incentivos financeiros para a realização de menos exames, em vez de mais.

De 10% a 20% das crianças no estudo submetidas a tomografias na cabeça, as doses de radiação estavam numa faixa em que comprovadamente o risco de câncer cerebral ou leucemia triplica.

Smith-Bindman aconselhou os pacientes a participarem da decisão sobre fazer ou não esses exames de diagnósticos por imagem. “Os pacientes deveriam perguntar: ‘Para que serve esse exame? Será que eu preciso dele? Por quê? Preciso dele agora?’.” 

“Estamos alertando sempre para os riscos da radiação médica e da importância de substituir os exames radiológicos por exames que garantidamente não acarretam danos aos tecidos, como a ultrassonografia. Infelizmente o único exame de imagem realmente inócuo é a ultrassonografia, pois a ressonância nuclear, tida por muitos como inócua, pode ser extremamente tóxica para alguns pacientes, caso seja utilizado o seu contraste, que pode causar nodulações pelo corpo, a maioria deles superficiais, mas que podem atingir vísceras vitais e causar sérios problemas para o paciente. Foi publicado em 10 de setembro de 2012, na Folha de São Paulo uma transcrição de um artigo do The New York Times, que vale a pena ler e por isso estamos transcrevendo.”

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