A MAMOGRAFIA ANUAL NÃO REDUZ A MORTALIDADE POR CÂNCER DE MAMA E SUA RADIAÇÃO É PERIGOSA PARA A SAÚDE

O que já alertávamos à população brasileira há anos deu agora em todas as mídias importantes após a publicação de estudo canadense de 25 anos de acompanhamento: no jornal O globo, Folha de São Paulo, Estadão, CBN, UOL, Diário Catarinense, Diário de Pernambuco, para citar algumas. Desde o primeiro estudo canadense já havíamos percebido que a mamografia não era método adequado para rastrear o câncer de mama. O primeiro estudo foi realizado com acompanhamento de 10 anos e publicado na década de 90, tendo chegado à mesma conclusão do atual, que a mamografia não reduz a mortalidade pelo câncer de mama e foi considerado o melhor elaborado, executado e concluído em análise comparativa com outros 8 estudos sobre mamografia (LANCET, 355: 129-134, 2000).

As mulheres começaram a fazer mamografias na década de 1980. Na época, os médicos acreditavam que essa checagem salvava vidas ao detectar cânceres em estágios iniciais, considerados mais tratáveis do que os detectados mais tarde, especialmente em mulheres entre 50 e 64 anos.

A pesquisa publicada na quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014, no “British Medical Journal”, é o mais recente lance de um debate de décadas sobre os benefícios de mamografias. O estudo de 25 anos com 89.835 mulheres no Canadá, de idades entre 40 e 59 anos, reuniu ao acaso voluntárias para fazerem exames anuais de mamografia mais a avaliação das mamas pelo toque ou somente a avaliação física.

E conclui que “não constatou redução na mortalidade por câncer de mama com exames de mamografia” e isso ocorreu entre as “mulheres na faixa dos 40-49 anos no início do estudo e nas de 50-59 anos.”

As descobertas confirmam as pesquisas de outro estudo, publicado em 2012 no “New England Journal of Medicine”, o qual concluiu que as mamografias “estão tendo, no máximo, somente um pequeno efeito na taxa de mortalidade por câncer de mama”.

O estudo atual reforçou as crescentes evidências de que exames anuais de mamografia não reduzem o risco de uma mulher morrer de câncer de mama e confirma descobertas anteriores de que muitas anormalidades detectadas por esses raios-X nunca seriam fatais, mesmo se não fossem tratadas.

saude14-02-2014

Ilustração da Folha de São Paulo de 13 de fevereiro de 2013, caderno de Saúde + Ciência

Infelizmente, na contramão dos estudos internacionais, alguns médicos brasileiros ensistem em recomendar a mamografia como exame de excelência no diagnóstico do câncer de mama.  Contrariando as evidências de 25 anos de estudos controlados, bem realizados e dignos de credibilidade esses médicos brasileiros emitiram opinião sem considerar as evidencias científicas atualmente disponíveis, conforme veiculado na Folha de São Paulo, no caderno de Saúde e Ciência de 13 de fevereiro de 2014. O artigo da Folha menciona o mastologista do Hospital Sírio-Libanês, José Luiz Bevilacqua, que diz “ser preciso considerar que, entre as mulheres que desenvolveram câncer, tiveram chances maior de sobrevida aquelas que fizeram a mamografia.” E também menciona posicionamento de outro médico, Dr. José Roberto Filassi, mastologista do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo),  que diz sobre a mamografia que “não é a melhor ferramenta, mas é a que temos. Vamos continuar fazendo a mamografia e usar os novos estudos para ver o que pode ser aprimorado”.

Essas opiniões foram emitidas mesmo diante do estudo de 25 anos mostrando que a mamografia não realizou o único resultado que precisaríamos que seria reduzir a mortalidade por câncer de mama. Ainda continuam recomendando que suas pacientes se submetam aos exames radiológicos anualmente, como se não tivesse isso qualquer consequência maléfica para as mulheres.  E baseados em que? Onde está a medicina baseada em evidências do Dr. Bevilacqua e Dr. Filassi?

Realmente os defensores das mamografias costumam argumentar que as mulheres cujo câncer de mama é diagnosticado apenas por esse exame vivem mais do que aquelas cuja doença é constatada pelo exame físico, conforme mencionou Dr. Bevilacqua.

Entretanto, o estudo canadense também observou esse aspecto, mas a aparente vantagem é ilusória, concluíram os pesquisadores. Isto porque, se um câncer é suficientemente agressivo e resistente ao tratamento, provavelmente será fatal, independentemente de quando tiver sido detectado. Descobri-lo num exame de toque em 2011, em vez de uma mamografia em 2007, simplesmente significa que a mulher vive mais tempo sabendo que tem o câncer, não que viverá mais.

As mamografias elevam o tempo conhecido de sobrevida sem afetar o curso da doença, segundo o estudo canadense.

Além de não reduzir a mortalidade por câncer de mama, de acordo com o estudo, as mamografias estão provocando uma epidemia do que os pesquisadores chamam de “excesso de diagnósticos”.

Isso representa um diagnóstico exagerado de câncer de mama para cada 424 mulheres que fizeram mamografia, conforme constatado em grupo de pesquisa liderado pelo epidemiologista Anthony Miller, da Universidade de Toronto.

Surpreendentemente, a SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia) continua recomendando que o exame seja realizado anualmente a partir dos 40 anos, contrariando as recomendações da  Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos EUA, um painel independente de peritos médicos e cientistas, que recomendou em 2009 que a mamografia seja realizada cada dois anos para mulheres entre 50 e 74 anos, em vez da orientação anterior de que começassem a fazer mamografias a cada um a dois anos a partir dos 40 anos.

Para fazer sua recomendação a SBM diz ter se baseado em estudo da Universidade Federal de Goiás, que constatou incidência de 25% de câncer de mama no Brasil entre mulheres de  40 a 49 anos. Será que esse estudo avaliou a mortalidade do câncer de mama entre esse 25% das mulheres que tiveram câncer e realizaram a mamografia e comparou-as com as que não fizeram o exame? Pois essa é a questão, não a incidência do câncer de mama entre as mulheres de 40 a 49 anos.

O estudo Canadense sim analisou esse aspecto e concluiu que o benefício da mamografia inexiste, inclusive na faixa etária de 40 e 49 anos mencionada pela SBM, foi muito bem realizado e está embasado em outros estudos internacionais que o referendam. Tanto é assim que vários cientistas da América do Norte e Europa, diante de mais essa evidência contra a mamografia, declararam para que “a lógica da mamografia deveria ser urgentemente reavaliada pelos órgãos responsáveis pelas políticas de saúde”, já que mamografias anuais “não resultaram na redução da mortalidade específica por câncer de mama para mulheres entre 40 e 59 anos, além da obtida com a realização de exames de toque ou cuidados normais”.

Sugerimos que a SBM também reveja suas recomendações sobre a mamografia com base em critérios científicos: medicina baseada em evidências, conforme recomenda o CFM -Conselho Federal de Medicina.

Felizmente as posições como as do Dr. Filassi e Dr. Bevilacqua não são consensuais entre os médicos brasileiros e Dr. Arn Migowski, médico sanitarista e epidemiologista do Inca (Instituto Nacional de Câncer)  confirmou que os estudos recentes já apontavam que o efeito do rastreamento do câncer de mama não é tão grande como se pensava, conforme declarou à Folha de São Paulo no artigo de 13.02.2014 : “é um conjunto de intervenções que reduz a mortalidade, como garantir o acesso ao tratamento e oferecer terapias modernas”, diz.

Segundo ele, “o exame traz mais benefícios quando é feito a cada dois anos e dos 50 aos 69 anos de idade, como recomenda o Inca. Em muitos países europeus, a recomendação é a mesma.”

“Em um intervalo menor, o ganho é pequeno e você pode aumentar o número de intervenções desnecessárias. Não é um exame inocente.”

Parabenizamos o colega Arn por seu posicionamento científico e correto, que só poderá ajudar as mulheres, ainda mais que  ele está em um centro de referência.

De nossa parte recomendamos à mulher brasileira que evite a mamografia, pois está comprovado que não ajuda a reduzir a mortalidade por câncer de mama e se junta às outras fontes de radiações de causa médica para aumentar o risco de desenvolver câncer em qualquer órgão ou tecido, sendo a glândula tireoidiana um dos mais sensíveis à radiação.

O aumento da exposição à radiação médica (mamografias, Tomografias computadorizadas, exames radiológicos convencionais) ocorre concomitantemente com o aumento da incidência do câncer papilífero de tireoide. O câncer de tireoide representa cerca de 2.0% do total das malignidades em mulheres e 0.62% nos homens e sua incidência vem aumentando significantemente. Nos EUA, entre 1980 e 1997 aumentou 2.4% ao ano e entre 1997 e 2006 aumentou 6.4% (triplicou). Entre as mulheres o câncer de tireoide é o que está aumentando mais rapidamente (International Agency for Research on Cancer, http://www-dep.iarc.fr). Cerca de  410.000 pessoas vivendo em 2010 nos EUA tiveram câncer de tireoide em algum momento e  1.630 morreram de câncer de tireoide.

Felizmente a radiação de causa médica pode e deve ser reduzida, A COMEÇAR PELA MAMOGRAFIA. Mas para isso é necessário um trabalho de conscientização dos médicos e pacientes.

Então, o que fazer para detectar precocemente o câncer de mama sem prejuízo para a sua saúde futura?

Atualmente temos apenas 3 armas diagnósticas do câncer de mama que não têm radiação:

  1.  A ultrassonografia de alta resolução, de preferência associada ao Estudo Doppler e a elastografia, mas que requer ser realizada pelo protocolo completo recomendado pela Dra. Wendy Berger, quando fez estudos sobre o método pelo INH – Instituto Nacional da Saúde dos EUA (ACRIN 6666). Esse exame é bem mais completo e demorado do que o habitualmente realizado nos laboratórios médicos brasileiros em geral e é como realizamos em nosso consultório, a Sonimage.
  2. A Ressonância Magnética,que obrigatoriamente  tem que ser realizada com contraste para ser diagnóstica, o qual é bem tóxico, especialmente quando a função renal é deficiente.

O exame físico realizado pelo médico. Não somos favoráveis ao autoexame, pois as mulheres não são treinadas para saber o que é perigoso do que palpam em suas mamas. Pode ser neurotizante. É muita responsabilidade nas costas das mulheres. 

2 comentários sobre “A MAMOGRAFIA ANUAL NÃO REDUZ A MORTALIDADE POR CÂNCER DE MAMA E SUA RADIAÇÃO É PERIGOSA PARA A SAÚDE

    1. Joana:

      Entendo que está preocupada e ansiosa com seu caso, mas eu não disse para não fazer controles anuais. Longe disso. Eu acredito em exames preventivos, que se o câncer é detectado precocemente terá mais chances de ser curado.

      Mas o que eu disse foi que a mamografia não é capaz de detectá-lo a tempo para reduzir a mortalidade. O câncer que tem hoje na mama começou a desenvolver-se há 3 anos (nos casos que são mais agressivos) ou há 8 anos (nos casos que crescem mais lentos e são menos agressivos) e não sei qual é seu caso, pois não há um só tipo de câncer de mama, mas muitos tipos diferentes, uns mais e outros menos agressivos. Se vc realizava mamografias anuais e apenas neste ano não fez o exame eu te pergunto: porque não foi detectado há 2 – 3 anos ou há 6-7 anosa atrás quando vc já o tinha?

      O que eu disse é que devemos procurar métodos alternativos, que consigam detectar o câncer a tempo e o que sugeri foi o método tríplice: US, Doppler e Elastografia, realizado em um só tempo de exame e pelo mesmo profissional,para permitir a interpretação conjunta dos dados. Esse exame deveria ter sido realizado no lugar da mamografia. Aí poderia ter diagnosticado seu câncer mais cedo.

      E, finalmente, eu não fiz as pesquisas que mencionei, mas foram vários autores diferentes com publicações em periódicos médicos muito sérios e que verificam a correção dessas pesquisas antes de publicá-las. Em uma delas as pacientes firam seguidas por 25 anos realizando a mamografia e não tiveram queda da mortalidade em relação ao grupo que fez o exame físico apenas. Em outro caso a publicação detectou que 81% dos cânceres de mama que foram vistos na ultrassonografia não foram detectados na mamografia, mesmo na análise retrospectiva. E vasta maioria dos cânceres que a mamografia não detectou ocorreu em mamas densas. Será esse o caso? Os radiologistas agora até colocam uma observação nas mamografias que apresentam mamas densas que quando elas são assim a mamografia tem menor sensibilidade (ou seja, não consegue detectar o câncer).

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