O carcinoma ductal in situ não é câncer inicial, nem precursor do câncer de mama

Lucy Kerr

http://www.npr.org/2015/08/20/433257729/study-suggests-some-treatment-for-early-breast-cancer-is-unnecessary

O link acima é uma reportagem veiculada de Rob Stein em 20 de agosto de 2015 em rádio dos EUA, na qual há entrevistas com vários médicos nos EUA, que afirmam que não é recomendável a mastectomia quando o diagnóstico da biópsia mamária for de  carcinoma in situ, o qual se transformou na  principal causa de mastectomia desnecessária após início da detecção dessa condição nos rastreamentos mamográficos de rotinas implantados em vários países e denunciados pela Cochrane como um dos piores malefícios do método.

Quadro 1. Quem ou o que é a Cochrane?

  1. Cochrane é entidade científica sem fins lucrativos
  2. Analisa a qualidade e metodologia das publicações científicas utilizando o manual da Cochrane para saber o que funciona ou não em relação aos diagnósticos, tratamentos e prevenção na área médica
  3. Revisões são publicadas e atualizadas na biblioteca online Cochrane
  4. Respeitada pela ciência ética e competente
  5. Temida por cientistas e grandes  corporações que usam a ciências para desvirtuar a verdade em benefício próprio
  6. Denunciou a indústria farmacêutica
  7. Denunciou a indústria da mamografia
  8. Conta com aproximadamente 35.000 colaboradores no mundo
  9. Chefe da Cochrane da Dinamarca é Dr. Peter C Gøtzche que enviou à Dra. Lucy Kerr seus slides pessoais para auxiliá-la na campanha para abolir a mamografia no Brasil, uma das bandeiras da Cochrane

A mastectomia por CDIS- Carcinoma ductal in situ aumentou até em 422%1-2 devido ter-se descoberto recentemente que não é câncer inicial e nem precursor como se acreditava, e agora se sabe, após 20 anos de acompanhamento de uma grupo dessas mulheres que elas tem a mesma incidência de câncer do resto da população e é apenas um fator de risco, quando muito, mas não é câncer. O nome foi colocado erroneamente e precisaríamos mudá-lo, pois o termo carcinoma tem conotação muito ruim na mente das pessoas, traz imagens à nossa mente e que não são boas nesse caso.

Esse “câncer que não é câncer” é o principal responsável pelo aumento da detecção do “câncer bem  inicial” que  ocorre após se implantar o rastreamento mamográfico de rotina em todos ao países que o fizeram, o qual se manifesta por microcalcificações múltiplas e bilaterais e as mulheres acabam optando por mastectomia uni ou bilateral. Como não é câncer o resultado do tratamento é sempre muito bom na evolução dessas pacientes com carcinoma in situ. Ou seja, a mamografia aumenta a detecção do falso câncer de mama, mas não reduz a mortalidade do câncer que de fato é câncer, o qual não é detectado precocemente e surge como câncer de intervalo (entre os exames de controle), muito agressivo e fatal. O CDIS é principal causa dos diagnósticos excessivos da mamografia, sendo 29% na Europa e 33% nos EUA.

Quadro 2 – resumo de erros avaliação mamografia

  1. Defensores da mamografia apontam aumento da sobrevida dos casos câncer de mama detectados. É errado.
  2. Taxa sobrevida reflete diagnóstico excessivo e pessoas com diagnóstico excessivo não morrem de câncer de mama e são 2 os principais  diagnósticos excessivos da mamografia:
    1. CDIS, que não é câncer e não se morre do câncer que não se tem
    2. Câncer de crescimento muito lento e sem metástases. O paciente morrerá com o câncer, mas não do câncer.
  3. Taxa de mortalidade, que detecta efeito real do rastreamento e inclui todas causas morte, inclusive do tratamento câncer
    1. mortalidade da câncer de mama não reduziu com o rastreamento  mamográfico. Claro, simples e direto, sem contestação

E o pior é frequente termos publicações de pesquisadores com graves conflitos de interesses na defesa da mamografia e que “incham” as estatísticas  que favorecem o método com o falso câncer para justificar que a mamografia continue sendo realizada.4-8 Felizmente elas são contestadas a seguir pelos pesquisadores da Cochrane e os graves erros metodológicos e conclusões absurdas são devidamente desvendados.  9-21 Segundo Dr. Peter Gørtzsche, é preciso analisar o todo e não fazer subgrupos desejáveis, que distorcem o resultado final das séries e cria os resultados desejados. São as pedaladas estatísticas, um artifício muito utilizado pelos que tem conflitos de interesse.

Slide cedido pelo Dr. Peter Gørtzsche à Dra Lucy Kerr apresentar em aulas que esclareçam sobre a ineficácia e maléficos da mamografia
1ª aula realizada em 27/08/15 e disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DGhcrMrC4h0

Detecting cancers before they even exist3.JPG 
Figura 1. Dr. Peter Gørtzsche  tapa rosto com as mãos frente ao absurdo do cartaz  que vê na sala de espera Hospital Toronto: “Agora podemos detectar alguns cânceres mesmo antes  de existirem”, Women’s College Hospital, Toronto, 11 Dec 2013

Mas o pior é termos que trazer uma reportagem da mídia americana para demonstrar que o que estamos dizendo é publico e notório lá fora.

Enquanto as mulheres norte americanas são devidamente informadas sobre a ineficácia e malefícios da mamografia, aqui nada…

E a conseqüência é que a ignorância é útil para manter a necessidade da mamografia desnecessária. Quem está ganhando com isso? A resposta a essa pergunta é a chave do “outubro rosa”, que de fato deveria ser chamado outubro negro.
Se desejar apoiar nossa campanha assine nossa petição eletrônica:
https://secure.avaaz.org/po/petition/Ministerio_da_Saude_Abolir_a_mamografia_pois_e_ineficaz_e_causa_maleficios/?tdDFyfb

Referências

  1. Douek M, Baum M. Mass breast screening: is there a hidden cost? Br J Surg. 2003; 90  (suppl.1): (Abstrat Breast 14)
  2.  Gøtzsche PC. Mammography screening. Truth, lies and controversies.  Radcliffe Publishing Inc 2012, 1ªed
  3.  Wall C, Baines CJ, Miller AB Is carcinoma in situ a precursor lesion of invasive breast cancer?  Int J Cancer. 2014 Oct 1;135(7):1646-52.
  4. Dixon JM.  Breast screening has increased the number of mastectomies. Breast Cancer Res. 2009; 11 (Suppl. 3): S19
  5. Tabár L, Duffy SW, Smith RA. Beyond randomized controlled trials. Author’s reply. Cancer. 2002; 94(2):581-3
  6. Tábar L,Yen MF, Vitak B e col. Mammographic service screening and mortality in breast cancer patients: 20 year follow-up before and after introduction of screening . Lancet.2003; 361 (9367): 1405-10
  7. Duffy SW, Tábar L,Chen HH e col. The impact of organized mammographic service screening on breast carcinoma mortality in seven Swedish counties: a collaborative evaluation. Cancer. 2002; 95 (3):458-69
  8. Tabár L. [Screening with mammography contribute substantially to a significant reduction in breast cancer mortality ] [Swedish]. Läkartidningen. 2003; 100: 3211
  9. Zahl PH, Jørgensen KJ, Maehlen J, Gøtzsche PC. Biases in estimates of overdetection due to mammography screening. Lancet Oncol. 2008 Mar;9(3):199-201
  10. Zahl PH1, Gøtzsche PC, Andersen JM, Maehlen J. Results of the Two-County trial of mammography screening are not compatible with contemporaneous official Swedish breast cancer statistics. Dan Med Bull. 2006 Nov;53(4):438-40.
  11. Gøtzsche PC. invited response. J Surg Oncol. 2002; 81: 162-3
  12. Jørgensen KJ, Gøtzsche PC. Overdiagnosis in publicly organised mammography screening programmes: systematic review of incidence trends. BMJ 2009;339:b2587.
  13. Morrell S, Barratt A, Irwing L, et al. Estimates of overdiagnosis of invasive breast cancer associated with screening mammography. Cancer Causes Control 2010;21:275–82
  14. Kalager M, Adami HO, Bretthauer M, et al. Overdiagnosis of invasive breast cancer due to mammography screening: results from the Norwegian screening program. Ann Intern Med2012;156:491–9
  15. Jørgensen KJ, Klahn A, Gøtzsche PC. Are benefits and harms in mammography screening given equal attention in scientific articles? A cross-sectional study. BMC Med 2007;5:12
  16.  Norris SL, Burda BU, Holmer HK, et al. Author’s specialty and conflicts of interest contribute to conflicting guidelines for screening mammography. J Clin Epidemiol 2012;65:725–33
  17.  Riva C, Biollaz J, Foucras P, et al. Effect of population-based screening on breast cancer mortality.Lancet 2012;379:1296.
  18. Woloshin S, Schwartz LM. The benefits and harms of mammography screening: understanding the trade-offs. JAMA 2010;303:164–5
  19. The Annals of Internal Medicine Editors When evidence collides with anecdote, politics, and emotion: breast cancer screening. Ann Intern Med 2010;152:531–2
  20. Gøtzsche PC, Jørgensen KJ. Screening for breast cancer with mammography. Cochrane Database Syst Rev. 2013 Jun 4;6:CD001877. Review.
  21. Gøtzchhe PC. Rational Diagnosis and Treatment: evidence-clinical decision-making. 4th ed. Chichester:Wiley; 2007

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